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Sábado, Novembro 13, 2010

FALTA-NOS TANTO A VIDA, QUANDO SE FALA TANTO EM PROGRESSO

FALTA-NOS TANTO A VIDA, QUANDO SE FALA TANTO EM PROGRESSO

Odemar Leotti

O título desse texto é uma paráfrase do início da introdução de Teatro e seus duplos, da autoria de Antonin Artaud. Na década de 30, do século XX, ele dizia que falta-nos tanto a vida quando se fala tanto em civilização. Hoje, poderíamos dizer que ela nos foge e se confunde com um novo formato do conceito de progresso, esse mesmo progresso que seria o caminho a ser construído para salvar todas as culturas classificadas, numa construção positivista, como atrasadas, e da necessidade de dar-lhes vida, que somente seria possível através de sua evolução ao patamar das tão sonhadas nações civilizadas.
Vida: concepção arrancada do nada para se alojar nas palavras e instaurarmos-nos na sensação de nossas subjetividades. Para construir nossa flutuação e possibilitarmos nossa barcaça sobre esse oceano das coisas inatingíveis. Cada qual, cada grupo, casa, sociedade se junta e se entendem e desentendem, se impõem regras, excluem e incluem no afã de se entender fazendo a vida florescer. Se subjetivar nas raias de nossos sentimentos ou ter que aplacar a dor de sermos obrigados a navegar nas formações que nos roubam o espaço dos desejos, ao senti-los mapeados pelo conjunto de regras de uma guerra tornada política e seus poderes tornados fortes e positivados pela positivação de uma vontade de verdade formatadora e instaurada em sua função de episteme. Daí tornarem-se ementas e determinar grades para as formas desejantes, eis o passo do que vemos com tanta inocência e sonambulismo. De resto, ficam os desarranjos produzidos e nossa angústia para deles nos desvencilhar ao termos que enfrentar os dragões que vigiam as portas do nosso encontro com nós mesmos, esse lugar em que fazemos estrangeiros.
O que nos faz separar vida de cultura? Porque aprendemos que existe sociedade de um lado e cultura dela separada, ou sendo vista como seu subproduto? De que forma essa maneira de sentir as coisas nos comanda. O que pode fazer coincidir cultura e vida. O conhecimento foi feito para que seja cultuados e a imposto como conteúdo através dos dispositivos educacionais tais como acontece em nossa realidade educacional? Ou o conhecimento deve ser algo com o qual nos arregimentamos para poder cultivar a vida, tal como as saberes de um agricultor no seu trato na produção de uma cultura agrícola visando o cultivo da planta para com ela cultivar o corpo dos seus convivas: da sua família, da sua comunidade, do seu município, do seu estado ou país? Então por que sentimo-nos na arrogância de um saber erudito e ao invés de ajudar os aprendizes a formar uma leitura que o localize para constituir-se como livre espírito do caminhar, o impomos um conhecimento que determina a verdade prescritiva do seu passado, do seu presente e lhe ensina para onde vai, engessando qualquer possibilidade da criação do novo? Paramos um segundinho para olhar para traz e observar algo estarrecido, de que estamos construindo uma forma de saber que se parece muito com um pensamento que tem fome de chão e que vive numa artificialidade por achar que o mundo deve se igualar a esse conhecimento para ter sentido?
Se viver é o que precisamos, então o que é viver para cada um de nós? O que é a vida hoje? Devemos continuar a defender ou mesmo nos inventar a partir de uma forma de conhecimento que não atende aos clamores de milhões de seres que não tem o que comer ao menos? Devemos ficar horas e horas tagarelando em defesa de uma forma de saber que faz com que milhares de pessoas chorem e se desvanecem em bandos cada vez maior e mais intenso de solidão, depressões mesmo tendo o que comer? A existência da cultura que tantas vezes defendemos já salvou alguém de ter fome?
O que seria mais urgente hoje? Continuar a obedecer a essa forma cultural que nunca salvou nossas vidas, de tantos dissabores? Que nunca teve complacência com os atos de cada um, que ao confiar a essa forma cultural despejara todas as economias culturais, ou seja, jogou tantas singularidades culturais, na certeza oferecida e as destruíram moralmente, politicamente e economicamente? Uma forma que proporcionou e ainda proporciona lágrimas às suas crianças por ter confiado na maneira de agir a um ensinamento cultural que ao invés disto roubou-lhes e aos seus suas possibilidades de uma vida efetiva?
O que precisamos então fazer? Não seria extair, conforme nos provoca Artaud, algo realmente nos efetive, nos plante nesta dádiva que nos é colocada à disposição que é a vida em toda sua extensão biológica com seu mar de mistério inesgotável para nos alimentar de espírito e corpo? Sim, afirma Artaud: “seria extrair, daquilo que se chama cultura, idéias cuja força viva é idêntica à da fome”. Que seriam estas idéias com qu precisamos funcionar? Que idéias seriam estas, senhor leitor? Não seria a idéia de que o viver é uma possibilidade que para se dar torna-se imprescindível estarmos vivos em todas nossas concepções vitais biológicas e espirituais, ou melhor, os dois se misturando num emaranhado sensual? Para tanto não precisaríamos acreditar, ou melhor, dar créditos à possibilidade de nos instaurarmos em vida, nos colocarmos em seus fluxos constantes. Para Hölderlin, um pensador do início do século XIX, a vida se dá por fluxos e não por miséria. Devemos ver esses fluxos como vida ou como erros profanos que devem ser esterilizados por um pensamento puro e sistematizador que depure os seus elementos os distinguindo de uma teia mundana que a ciência veria como desordenada. Para Artaud: “Acima de tudo precisamos viver e acreditar,no que nos faz viver – e aquilo que sai do interior misteriosos de nós mesmos não deve perpetuamente voltar sobre nós mesmos numa preocupação grosseiramente digestiva”.
Nietzsche ao questionar o mau uso da cultura do pensar nos adverte sobre o desconhecimento de nós mesmos. Isto não seria um alerta para o quanto nos submetemos a um sonambulismo, fundamentados de uma abstração que ao instituir-se se apodera de nosso corpo e o mata, o trucida, o deixa escravo, tornando seu usuário um espírito pobre,inóspito, árido, solitário, presa de um estrangeirismo de si mesmo?
Ao nos abarrotarmos com um pensamento totalizador, enciclopédico, acumulador estamos sendo produzidos em uma forma de um sujeito feito de um exercício de poder que nos faz formigas carregadoras de bens, de frutos, de néctares não para saciar nossa fome do presente mas para acumular depositar de alimentos para o dia em que tivermos iluminações suficientes para podermos utilizá-las como uma sabedoria dos fins últimos, dos tempos finais ou mesmo em um outro mundo. Pior ainda é nos entendermos como membros de uma Humanidade e que esses fardos cotidianos serão utilizados por outra geração que nasceria num estágio paradisíaco, quando essa Humanidade for constituída em uma história transcendental. Fazer com que nos orgulhemos de ser inventados como sujeito dessa história abstrata e fazer-nos orgulharmos-nos dessa tarefa histórica e ver tanto dinheiro público gasto em defesa desse sonambulismo. Pior ainda é quando somos convencidos de transformar a única forma viva que é nossa atualização presente em um fardo onde trabalhamos até a exaustão e nos sentimos orgulhosos disso. O pior e mais escandaloso é saber que o presente já chegou em alguns recantos para uma minoria que usufrui de nossas energias canalizadas em iates e hotéis de luxo como Búzios, Punta del Leste, Angra dos Reis, etc. saber que todo nosso fardo é para alimentar uma minoria, que tenta ao custo dessa ignomínia, se satisfazer para superar sua própria pauperidade espiritual, essa pobreza que somente sabe adquirir dinheiro. Assim tanto a maioria faminta literalmente e a minoria faminta espiritualmente que vive com a alma magra e o bucho lotado, estão na mesma barca perversa dos famintos de vida. Mesmo assim a maioria fabrica manifestações em seu cotidiano cultural e que é industrializado pela minoria faminta da alma, para encher ainda mais suas entranhas insaciáveis e famintas pela aridez artística com que são formadas.

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A FRAGILIDADE E CONSISTÊNCIA DAS PALAVRAS

A FRAGILIDADE E CONSISTÊNCIA DAS PALAVRAS

Odemar Leotti

Cada palavra é uma borboleta morta espetada na página: por isso a palavra escrita é muito triste. Mario Quintana.


Cuidemos de tudo que decida nossa vida. Nossa vida? Não a temos pronta. A temos sempre sendo, sempre sendo e sempre tecida no dia a dia. Esse fazer constante da vida pelas palavras, através das palavras tornadas signos encadeados. Feita de palavras, mas antes de tudo dentro de um espaço político. Político entendido como um campo de guerra de todos contra todos. É nessa interface entre as palavras e as coisas que se dá o teatro político. Entendendo nesse caso política como continuidade da guerra por outros meios em uma terra conquista e usurpada pela força. A vida como “lugar da improvisação e da rigorosidade matemática, como no teatro. As coisas estão por aí, devemos buscá-las procurando, uma linguagem através dos signos, de gestos e objetos, com a ‘importância dos sonhos’”. A reunião que cada qual faz da palavra obedece a leis, diria a regras de sua aparição. Leis e regras são coisas dos homens e o mundo nasce das semelhanças das palavras: as palavras semeiam semelhando a vida. Sêmens seminam e a magia das palavras tecidas no cotidiano enredam possibilidades entrelaçada de palavras poetizadas e ditas no fazer inseminado de vida.

A diferença surge das analogias que tomam assento em novas territorialidades violentando-as e tornando-as contaminada de novas formas de ocupação do seu espaço. Esse espaço das palavras sofre com essas capitulações, novas analogias de sua formação e é dentro dele que os corpos se movem e é aí que as relações que emanam de cada imanência se cruzam, se resvalam, se contaminam e formam novas territorialidades diferidas no espaço e no tempo. Novas palavras, novas violações da natureza das coisas.

Eu acrescentaria que para nós as formas das escritas Astecas, Incas, da infinitude dos mistérios das múltiplas culturas das sociedades aqui existentes antes do ato de violação chamada de conquista, contaminação irreversível do ser das coisas. Estas formas de vida forram submetidas pela guerra de conquista e depois essa guerra tomou forma em guerra dos sentidos. Tudo se tornou um emaranhado de sentidos, mas predominou como saber dominador, o do invasor em sua tentativa de supressão do espaço das multiplicidades, tanto das culturas quanto de sua transmigração para o interior de cada um. O que podemos dizer que primeiro foi a guerra depois a política como sua continuidade.
Não podemos generalizar a vitória de um lado, pois as contaminações se dão de todos os lados no embate dos sentidos e de suas apropriações infinitas no tempo e no espaço. Foram contaminados pelos europeus, mas estes se contaminaram com os saberes e podemos dizer inclusive fizeram uso dessas culturas em situações complicadas que trazem e trarão grandes problemas, tais como o uso de drogas adquiridas com essas culturas. Portanto antes de a eles se “submeterem” os submeterem a novas analogias misturadas e disfarçadas pelas simulações, porém mesmo não sendo intencional, podemos dizer que o próprio ato de apropriação se dá com cada forma do estabelecimento das leituras e das condições de sua produção e não unicamente como quer um tipo de historiografia. É nesse palco improvisado e rigoroso em suas formas análogas das palavras e dos símbolos que nos sentimos sendo, nesta terra mundializada em tantos mundos e em suas digladiações simbólicas.

"O Pesa nervos", “a vida é queimar perguntas”, o que deve reportar a Pedro Abelardo, [30 nota] dando um passo além de Descartes: a dúvida não deve ser apenas metódica até alcançar a evidência, mas a atividade mental deve ser levada a um tal ponto de interrogar-se que chegue à "destruição da evidência".

Pode-se observar nisto tudo a palavra dançando na linguagem, tirando dela toda a sua solidez e fragilidade simultâneamente. Se alquebra à menor insinuação criada e se fortalece perante torrentes ifernais: eis aí a linguagem do ser. Um Instaurar-se no espaço do sensível regrado pela força que media a criação. No solo inseguro da linguagem que desmonta, destitui e faz do ser uma eterna guerra e vigília do entendimento do mundo. Mundo feito para ser feitura constante onde quem quer que seja, será seu protagonista da feitura. E isso não para de ser assim. Se não fazemos o uso das palavras de forma salutar elas nos vem como coisificações de forma perversa e destruidora. As palavras servem, ao mesmo tempo, para fazer vivificar a vida e quando fora do controle da poética da maioria, volta contra nós e o faz para enunciar a morte. Vivemos nessa vertigem constante. Não podemos entregar a trama da escrira que funde nosso ser aos cuidados dos que nos querem destruir subordinando-nos a uma subvida ou nos destruindo quando nada podemos lhe oferecer. O estanhar do mundo é uma constância na luta em torno dos sentidos. O que nos oferecem como forma pronta pode ser nossa destruição naquilo que nos caracteriza como ser pensante. Portanto a evidência deve ser usada e descartada ou nem mesmo usada, porém o importante é que não aceitemos nada como evidência definitiva, e devemos sim perseguir a resposta e massacrá-la com novas perguntas. Os sentidos são como uma teia de aranha: é frágil a ponto de se desmanchar a um leve toque de dedo, porém tem a consistência e a solidez das rochas ao enfrentar a mais forte tempestade. Ao encontrarmos uma teia em um ramo de árvore e a tocarmos se desmancha facilmente, porém se quebrarmos essa galha e a jogarmos a um mar enfurecido, a teia flutuará e se condicionará no relevo de suas ondas e sairá intacta. Essa metáfora da teia, nos presenteada por Nietzsche, serve para entendermos que a vida é feita de signos, de sentidos produzidos na linguagem, e, portanto tem a fragilidade de se desmanchar a um pequeno toque e a consistência de suportar as mais terríveis avalanches. A vida é produto de nossa eterna vigília e tessituras infinitas. É isso a vida: o nada e o ser-no-mundo, sendo feito e refeito onde somos artistas de nós mesmos.

Segunda-feira, Outubro 11, 2010

Protec é igual privatização das escolar técnicas que lula fez

Pensando bem a proposta do Serra de fundar o PROTEC leva como proposta real a privatização das Escolas Técnicas que foram construídas no Governo LULA/DIMA.

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Terça-feira, Junho 15, 2010

DIÁLOGO ENTRE UM VIAJANTE E SUA SOMBRA

Para tentarmos um diagnóstico sobre o passado primeiramente temos que nos haver com procedimentos e as formas tais como tornou verdades nossa leitura sobre o passado. Para irmos direto ao assunto, o século XIX, foi um tempo onde a espacialidade do “interior” do país sofreu tentativas de reterritorializações. Devemos ligar para o entendimento da empresa de povoamento da, assim chamada frente oeste da fronteira do Brasil, às práticas discursivas que produziam subjetividades: a partir do início do século XIX, principalmente. Porém, se nos acurarmos aos estudos sobre a emergência de formas de saber na Europa desde a época clássica e do deslocamento das formas de análise que essas práticas realizaram com relação ao século XVI, entenderíamos que o problema maior reside muito mais nas formas de produção do passado do que no próprio passado. Poderíamos recuar um pouco mais no tempo e ver que as análises que ora prevalecem na leitura do passado, tem seus fundamentos em um saber produzido a partir de um sistema de pensamento do século XVII e não consegue sair dele com suas próprias ferramentas. Independente as diferenças aparentes das constituições sobre o passado, podemos até confundir a diferença entre espaço e tempo, pois o interior se confundia com o tempo primitivo, atrasado. Ao invés de ver diferenças os olhares viam formas do passado, ao qual, estava configurada sua forma de leitura do espaço. Portanto, alicerçado em uma busca da essência original, da matéria primordial do ser, o olhar sempre termina pairando na busca de uma origem que explicasse a identidade. No caso de Mato Grosso, essa busca de origem para a instituição de uma identidade nacional se afirmou com maior força no final do século XIX, com o advento da movimentação alimentada pelo republicanismo. Esse republicanismo não pode ser visto como tendo um sentido em si e sim como uma formação discursiva que carregava para além das bordas dos ditos e dos escritos as marcas de uma discursividade que lhe dava a conformação. Por outro lado o seu aspecto empírico é cenário da presença de corpos em suas tentativas de conciliar leis e natureza. Nesse espaço do visível e do inexplicável abria fendas para a criação que tomou formas singulares ao seu espaço e tempo.
O final de século XVII foi palco de uma ruptura produzida, onde a representação se desdobrou por sobre si mesma e criou uma consistência mais forte ainda no início do século XVIII se consolidando no início do século XIX, com o surgimento das ciências do homem. Para podermos entender com mais familiaridade o que se quer quando afirmamos sobre as produções que configuraram a imagem do homem, na forma tal qual o vemos emergir nos escritos historiográficos até nossos dias, é preciso rever nossa leitura a partir do período clássico europeu. O alongamento da argumentação desse tema, demanda tempo e espaço que escapa às necessidades que ora nos apresenta em nosso projeto. Porém ela será mais bem estendida quando da complementação dos estudos que retratam a instituição da forma de saber clássica que instituiu uma forma sistemática do ser inventando um homem com linguagem, vida e trabalho sistematizada no momento cartesiano e com uma missão de ser o sujeito da sua emancipação e do mundo tal qual aparece nos textos kantianos. Para falarmos em história, devemos entender a invenção desse Homem, com as questões não discursivas que foi a implementação do Estado Nacional e o projeto administrativo implantado por uma burguesia que despontava e que usurpou o poder da cultura guerreira e de sua forma de poder. Pra tanto é importante o cruzamento do estudo das formas de construção do passado com a tentativa da construção da figura do Estado e de sua fase republicana no Brasil. O que pretendemos é mostrar que paralelo a um espaço da escrita que inventava um passado, esse se dava como busca de uma origem nacional, voltada para a figura não mais de um olhar da Europa para o Brasil mas voltado para seu interior: inventar a partir daí uma origem da fusão das raças e com elas dos tempos: um tempo primitivo que se instituiu como espaço “atrasado” e uma cultura intelectual que se atribui a si mesmo o papel de reorganizar os nexos históricos e toda uma rede institucional de coerção a tentar implantar uma legitimidade do presente sobre as múltiplas ações dos homens.
Tomando o cuidado de não distanciar do problema que estamos enfrentando, gostaria de contabilizar o que já dissemos nesses parágrafos anteriores. No primeiro parágrafo, discorri de um problema que me levou à dificuldade de entender as explicações intrincadas da formação do quadro no século XVII. Sem entender bem foi ele que me veio ao pensamento quando quis escrever sobre o que o que estamos nos embatendo no momento de falarmos do passado, e no nosso caso específico, com o passado recente de Mato Grosso, está falando do “problema” quanto a forma de construir o “problema”. Não estaríamos falando que tal problema reside não no que o quadro invisível nos oferece, ou seja, a forma invisível onde estariam retratado os protagonistas de um tempo, colocado nesse quadro pelas mãos hábeis que deram volume a essa realidade. Esse seria a primeira camada, ou o primeiro ato da produção. Porém o quadro aparente parece mostrar – pelo menos à leitura que ora consigo fazer - um quadro onde o pintor retrata e é retratado pelo próprio expectador. Ou seria como que uma criatura estaria naquela situação dando-se à seu desdobramento sob o olhar do seu criador.. Aliás, entra ainda mais o meu lugar de leitor e de tantos outros que se põem a interpretar o passado como uma obra. Aí ainda reside uma nebulosa que não consegui me desvencilhar. Porem seguindo meio incerto à frente da obra, pela fuga dessa dificuldade de leitura, pude notar que essa representação como lugar do conhecimento sofre tal deslocamento no século XVII e sem sua discussão torna-se inócuo levarmos a efeito a discussão dos problemas que no presente nos afetam. Poderíamos também seguindo a linha do espelho, falar em sua proliferação de imagem que se multiplicam sem fim, mas, porém sem haver a possibilidade do novo. O que fica é somente repetição, impedindo os pontos de fuga. Gostaria de volta a isso após mais leituras de outros lugares.
A forma pela qual tento entender-me e fazer meu leitor, (aqui me incluo nesse “meu leitor”) entender, ou seja: a necessidade desse deslocamento nos procedimentos de pesquisa foi para entender que devemos estranhar as formas historiográficas que produziram essas proliferações sobre o passado. Com isso queremos problematizar as formas problematizadoras que as instituíram e deram ao nosso viver essa sintaxe, ou melhor, esse quadro tido como realidade.
Quando nos deparamos com discursos que nos parecem dispersos e sem haver um com o outro, fico preocupado se não seria nossa forma de leitura que estaria nos levando a ver tudo isso como dispersão. O sentido de dispersão e dissonância não é aí uma forma de poder que se faz funcionar quando nos damos a ver a partir do entendimento que as formas emergenciais são estanques umas às outras? Acho que a minha dor tem certo parentesco com a dor dos personagens e os lugares que foram reservados a eles, ou na extensão da proliferação espelhar, de todos nós. Como resultante disso temos que nos relacionar nesses espaços territorializados do saber historiográficos ou antropológicos encaixotados, fragmentados que nos deixam pouca margem para a criação. É comum ouvirmos certas afirmações com a que segue. Os índios devem ser objeto de estudo dos antropólogos. A sexualidade dever ser objeto de estudo dos estudiosos de gênero. Será que isso não seria a armadilha que às vezes caímos. Será que nossa incapacidade de sairmos do lugar de nossa subjetivação nos impede de superarmos essas familiaridades perversas. O que tem a ver a política indigenista com a história da sexualidade, o instituto histórico e geográfico e a vinda dos salesianos a Mato Grosso? Eis aí a grande tarefa: mostrar a inocência dos fatos, suas pretensas dispersões não seriam já em si frutos de uma artimanha do exercício do poder? Ou melhor, do exercício que deixe de ser uma verbalização e passa a ser apoderado em sua forma de ser, in síntese: um poder substancializado e que não se desfez para se renovar. As leis são pulsões que nos tiram do terror do nada e ajuda a constituir o nomos numa conjunção divinizada com a phisis. Não seria uma forma de abrigar as variações que obstam a possibilidade do contínuo, dos nexos das coisas, ou melhor, ainda, não seria a tentativa de harmonizar tudo que causa turbulência à formação dos nexos de uma história que se quer finalista e corretora das diversidades. Os pontos de fuga não seriam ao contrário as extensões multiplicadoras que fogem ao olhar normalizado e lhe causaria vertigem?
Quando nos remetemos a esses dois lugares da leitura – a nomeação e as coisas o fazemos para a necessidade de divinizar a vida como obra de arte e tudo se dá num emaranhado. Esse emaranhado é um espaço de agenciamentos de poderes imanentes ao ser e ele contém nosso aprendizado e nossa sexualidade: enfim o espaço da instituição do Estado Nacional na conceituada como Fronteira Oeste, teve como protagonistas múltiplas formas de ser e com ela se colocava em jogo exercícios de poder: exercícios religadores de leis e corpos.
O que queremos com isso? Não seria desvendar essa fronteira em que é colocada a identidade intelectual? Quando falamos de espaços imanentes o entendemos como de agenciamentos de desejos e com eles de um saber de sua efetivação divinizada como obra de arte. Portanto não estaria falando das palavras e nem das coisas e sim de uma fusão de ambas por um jogo de poder. De que estaria então falando então? Não seria das práticas discursivas instituídas que deram autoridade de fala a um poder configurado na imagem do Estado Nacional e com isso a toda uma reviravolta na forma de pensar do mundo? Se ligarmos a um fato de discurso em que o pensamento do século XVI, onde o ser das coisas se desloca do emaranhado do mundo, da semântica que era carregada de mistérios onde os signos tinham um valor absoluto em si, as coisas já estavam carregadas de significados que os assemelhavam. Se adentrarmos ao século XVII na Europa poderemos visualizar que o saber a partir daí, deserta desse emaranhado do mundo. Se antes o livro estava a serviço do desvendamento dos mistérios do mundo, na fase clássica o mundo é que deve se adaptar ao livro. O que era semelhança passa ser entendido como diferença, torna-se dado a ser coletado e tirado desse fervilhar rizomático para ser anexado a uma história universal da contingência. E só passa a irradiar sentido quando submetida a um sistema de pensamento.

Sábado, Junho 12, 2010

E DAÍ?

Nem sempre o nosso caminho é rico quando não é atropelado pelo acaso. Há e quase sempre acasos que na realidade salvam o cotidiano de sua continuidade obsessiva e nos faz aflorar na beleza do instante, átomos dessa vida que tentamos compreender bastante ao ponto de perdê-la. Nem sempre uma esterilidade tornada verdade faz da gente pessoas felizes. Às vezes e ainda bem que há sempre às vezes os ainda que nos faz esperar e ouvir o que parecia inaudível. Aí então como se parecesse a um louco nos pomos a olhar para coisas parecidas com as consideradas coisas inconseqüentes. De repente aquilo que seria uma perda de nosso precioso tempo parar para olhar, para pensar para nos por em ato a nós mesmos acontece... eis que acontece. Nos arrepiamos e pensamos duas, três vezes na coragem de se jogar e eis que ficamos na encruzilhada entre a vida contínua e a continuidade do instante que nos acena com ar de safado querendo nos roubar , bater nossa carteira da vida que não nos deixa viver coisas inúteis e fascinantes. Daí ficamos tristes com nós mesmos ou nos jogamos ao lixo desse si tão estéril que nos faz um viver esplendorosamente um dia após outro carregado de elogios mas totalmente causticante. Caustica e nos instiga e nos empurra drenando nossa potência e canaliza nossa vontade a encana e a coloca nos drenos abastecedores da grande usina dos curtidores de Búzios. Búzios, buscamos para nos explicar a tristeza e o descaminhar nesse lugar que nos parecia tão fértil e eis que o que parecia fútil nos rouba o olhar desavisado por um instante. Uma brecha se abre, uma fissura rompe a dureza da rocha e nos mostra a fresta de sol que parecia nunca mais nos aquecer de forma imprevista, nos aceita para uma preguiça e nos faz não mais ligar que nos chamem de vagabundo, do absorto, de perdido na lua. Na rua em qualquer lugar em qualquer momento nos pegamos soltos e sendo roubados de nós mesmos. Nós mesmos? Ou somos soltos dos nós que nos fez tornar o mesmo de tantas formas do mesmo que nos faz pensar livres? E daí o que fazer?

Sexta-feira, Junho 04, 2010

A bomba explodiu no colo do Serra

REPORTAGEM RETIRADO DO BLOG CONVERSA AFIADA
Livro desnuda a relação de Serra com Dantas.
É por isso que Serra se aloprou
Publicado em 04/06/2010
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A bomba explodiu no colo do Serra


O Conversa Afiada recebeu de amigo navegante mineiro o texto que serve de introdução ao livro “Os porões da privataria” de Amaury Ribeiro Jr., que será lançado logo depois da Copa, em capítulos, na internet.
Vai desembarcar na eleição.
É um trabalho de dez anos de Amaury Ribeiro Jr, que começou quando ele era do Globo e se aprofundou com uma reportagem na IstoÉ sobre a CPI do Banestado.
Não são documentos obtidos com espionagem – como quer fazer crer o PiG (*), na feroz defesa de Serra.
É o resultado de um trabalho minucioso, em cima de documentos oficiais e de fé pública.
Um dos documentos Amaury Ribeiro obteve depois de a Justiça lhe conceder “exceção da verdade”, num processo que Ricardo Sergio de Oliveira move contra ele. E perdeu.
O processo onde se encontram muitos documentos foi emcaminhado à Justiça pelo notável tucano Antero Paes e Barros e pelo relator da CPI do Banestado, o petista José Mentor.
Amaury mostra, pela primeira vez, a prova concreta de como, quanto e onde Ricardo Sergio recebeu pela privatização.
Num outro documento, aparece o ex-sócio de Serra e primo de Serra, Gregório Marin Preciado no ato de pagar mais de US$ 10 milhões a uma empresa de Ricardo Sergio.
As relações entre o genro de Serra e o banqueiro Daniel Dantas estão esmiuçadas de forma exaustiva nos documentos a que Amaury teve acesso. O escritório de lavagem de dinheiro Citco Building, nas Ilhas Virgens britânicas, um paraíso fiscal, abrigava a conta de todo o alto tucanato que participou da privataria.
Não foi a Dilma quem falou da empresa da filha do Serra com a irmã do Dantas. Foi o Conversa Afiada.
Que dedica a essa assunto – Serra com Dantas – uma especial atenção.
Leia a introdução ao livro que aloprou o Serra:

Os porões da privataria

Quem recebeu e quem pagou propina. Quem enriqueceu na função pública. Quem usou o poder para jogar dinheiro público na ciranda da privataria. Quem obteve perdões escandalosos de bancos públicos. Quem assistiu os parentes movimentarem milhões em paraísos fiscais. Um livro do jornalista Amaury Ribeiro Jr., que trabalhou nas mais importantes redações do país, tornando-se um especialista na investigação de crimes de lavagem do dinheiro, vai descrever os porões da privatização da era FHC. Seus personagens pensaram ou pilotaram o processo de venda das empresas estatais. Ou se aproveitaram do processo. Ribeiro Jr. promete mostrar, além disso, como ter parentes ou amigos no alto tucanato ajudou a construir fortunas. Entre as figuras de destaque da narrativa estão o ex-tesoureiro de campanhas de José Serra e Fernando Henrique Cardoso, Ricardo Sérgio de Oliveira, o próprio Serra e três dos seus parentes: a filha Verônica Serra, o genro Alexandre Bourgeois e o primo Gregório Marin Preciado. Todos eles, afirma, tem o que explicar ao Brasil.
Ribeiro Jr. vai detalhar, por exemplo, as ligações perigosas de José Serra com seu clã. A começar por seu primo Gregório Marín Preciado, casado com a prima do ex-governador Vicência Talan Marín. Além de primos, os dois foram sócios. O “Espanhol”, como (Marin) é conhecido, precisa explicar onde obteve US$ 3,2 milhões para depositar em contas de uma empresa vinculada a Ricardo Sérgio de Oliveira, homem-forte do Banco do Brasil durante as privatizações dos anos 1990. E continuará relatando como funcionam as empresas offshores semeadas em paraísos fiscais do Caribe pela filha – e sócia — do ex-governador, Verônica Serra e por seu genro, Alexandre Bourgeois. Como os dois tiram vantagem das suas operações, como seu dinheiro ingressa no Brasil …
Atrás da máxima “Siga o dinheiro!”, Ribeiro Jr perseguiu o caminho de ida e volta dos valores movimentados por políticos e empresários entre o Brasil e os paraísos fiscais do Caribe, mais especificamente as Ilhas Virgens Britânicas, descoberta por Cristóvão Colombo em 1493 e por muitos brasileiros espertos depois disso. Nestas ilhas, uma empresa equivale a uma caixa postal, as contas bancárias ocultam o nome do titular e a população de pessoas jurídicas é maior do que a de pessoas de carne e osso. Não é por acaso que todo dinheiro de origem suspeita busca refúgio nos paraísos fiscais, onde também são purificados os recursos do narcotráfico, do contrabando, do tráfico de mulheres, do terrorismo e da corrupção.
A trajetória do empresário Gregório Marin Preciado, ex-sócio, doador de campanha e primo do candidato do PSDB à Presidência da República mescla uma atuação no Brasil e no exterior. Ex-integrante do conselho de administração do Banco do Estado de São Paulo (Banespa), então o banco público paulista – nomeado quando Serra era secretário de planejamento do governo estadual, Preciado obteve uma redução de sua dívida no Banco do Brasil de R$ 448 milhões (1) para irrisórios R$ 4,1 milhões. Na época, Ricardo Sérgio de Oliveira era diretor da área internacional do BB e o todo-poderoso articulador das privatizações sob FHC.
(Ricardo Sergio é aquele do “estamos no limite da irresponsabilidade. Se der m… “, o momento Péricles de Atenas do Governo do Farol – PHA)
Ricardo Sérgio também ajudaria o primo de Serra, representante da Iberdrola, da Espanha, a montar o consórcio Guaraniana. Sob influência do ex-tesoureiro de Serra e de FHC, mesmo sendo Preciado devedor milionário e relapso do BB, o banco também se juntaria ao Guaraniana para disputar e ganhar o leilão de três estatais do setor elétrico (2).
O que é mais inexplicável, segundo o autor, é que o primo de Serra, imerso em dívidas, tenha depositado US$ 3,2 milhões no exterior através da chamada conta Beacon Hill, no banco JP Morgan Chase, em Nova York. É o que revelam documentos inéditos obtidos dos registros da própria Beacon Hill em poder de Ribeiro Jr. E mais importante ainda é que a bolada tenha beneficiado a Franton Interprises. Coincidentemente, a mesma empresa que recebeu depósitos do ex-tesoureiro de Serra e de FHC, Ricardo Sérgio de Oliveira, de seu sócio Ronaldo de Souza e da empresa de ambos, a Consultatun. A Franton, segundo Ribeiro, pertence a Ricardo Sérgio.
A documentação da Beacon Hill levantada pelo repórter investigativo radiografa uma notável movimentação bancária nos Estados Unidos realizada pelo primo supostamente arruinado do ex-governador. Os comprovantes detalham que a dinheirama depositada pelo parente do candidato tucano à Presidência na Franton oscila de US$ 17 mil (3 de outubro de 2001) até US$ 375 mil (10 de outubro de 2002). Os lançamentos presentes na base de dados da Beacon Hill se referem a três anos. E indicam que Preciado lidou com enormes somas em dois anos eleitorais – 1998 e 2002 – e em outro pré-eleitoral – 2001. Seu período mais prolífico foi 2002, quando o primo disputou a presidência contra Lula. A soma depositada bateu em US$ 1,5 milhão.
O maior depósito do endividado primo de Serra na Beacon Hill, porém, ocorreu em 25 de setembro de 2001. Foi quando destinou à offshore Rigler o montante de US$ 404 mil. A Rigler, aberta no Uruguai, outro paraíso fiscal, pertenceria ao doleiro carioca Dario Messer, figurinha fácil desse universo de transações subterrâneas. Na operação Sexta-Feira 13, da Polícia Federal, desfechada no ano passado, o Ministério Público Federal apontou Messer como um dos autores do ilusionismo financeiro que movimentou, através de contas no exterior, US$ 20 milhões derivados de fraudes praticadas por três empresários em licitações do Ministério da Saúde.
O esquema Beacon Hill enredou vários famosos, entre eles o banqueiro Daniel Dantas. Investigada no Brasil e nos Estados Unidos, a Beacon Hill foi condenada pela justiça norte-americana, em 2004, por operar contra a lei.
Percorrendo os caminhos e descaminhos dos milhões extraídos do país para passear nos paraísos fiscais, Ribeiro Jr. constatou a prodigalidade com que o círculo mais íntimo dos cardeais tucanos abre empresas nestes édens financeiros sob as palmeiras e o sol do Caribe. Foi assim com Verônica Serra. Sócia do pai na ACP Análise da Conjuntura, firma que funcionava em São Paulo em imóvel de Gregório Preciado, Verônica começou instalando, na Flórida, a empresa Decidir.com.br, em sociedade com Verônica Dantas, irmã e sócia do banqueiro Daniel Dantas, que arrematou várias empresas nos leilões de privatização realizados na era FHC.
Financiada pelo banco Opportunity, de Dantas, a empresa possui capital de US$ 5 milhões. Logo se transfere com o nome Decidir International Limited para o escritório do Ctco Building, em Road Town, ilha de Tortola, nas Ilhas Virgens Britânicas. A Decidir do Caribe consegue trazer todo o ervanário para o Brasil ao comprar R$ 10 milhões em ações da Decidir do Brasil.com.br, que funciona no escritório da própria Verônica Serra, vice-presidente da empresa. Como se percebe, todas as empresas tem o mesmo nome. É o que Ribeiro Jr. apelida de “empresas-camaleão”. No jogo de gato e rato com quem estiver interessado em saber, de fato, o que as empresas representam e praticam é preciso apagar as pegadas. É uma das dissimulações mais corriqueiras detectada na investigação.
Não é outro o estratagema seguido pelo marido de Verônica, o empresário Alexandre Bourgeois. O genro de Serra abre a Iconexa Inc no mesmo escritório do Ctco Building, nas Ilhas Virgens Britânicas, que interna dinheiro no Brasil ao investir R$ 7,5 milhões em ações da Superbird. com.br que depois muda de nome para Iconexa S.A…Cria também a Vex capital no Ctco Building, enquanto Verônica passa a movimentar a Oltec Management no mesmo paraíso fiscal. “São empresas-ônibus”, na expressão de Ribeiro Jr., ou seja, levam dinheiro de um lado para o outro.
De modo geral, as offshores cumprem o papel de justificar perante o Banco Central e à Receita Federal a entrada de capital estrangeiro por meio da aquisição de cotas de outras empresas, geralmente de capital fechado, abertas no país. Muitas vezes, as offshores compram ações de empresas brasileiras em operações casadas na Bolsa de Valores. São frequentemente operações simuladas tendo como finalidade única internar dinheiro nas quais os procuradores dessas offshores acabam comprando ações de suas próprias empresas… Em outras ocasiões, a entrada de capital acontecia através de sucessivos aumentos de capital da empresa brasileira pela sócia cotista no Caribe, maneira de obter do BC a autorização de aporte do capital no Brasil. Um emprego alternativo das offshores é usá-las para adquirir imóveis no país.
Depois de manusear centenas de documentos, Ribeiro Jr. observa que Ricardo Sérgio, o pivô das privatizações — que articulou os consórcios usando o dinheiro do BB e do fundo de previdência dos funcionários do banco, a Previ, “no limite da irresponsabilidade” conforme foi gravado no famoso “Grampo do BNDES” — foi o pioneiro nas aventuras caribenhas entre o alto tucanato. Abriu a trilha rumo às offshores e as contas sigilosas da América Central ainda nos anos 1980. Fundou a offshore Andover, que depositaria dinheiro na Westchester, em São Paulo, que também lhe pertenceria…

Ribeiro Jr. promete outras revelações. Uma delas diz respeito a um dos maiores empresários brasileiros, suspeito de pagar propina durante o leilão das estatais, o que sempre desmentiu. Agora, porém, existe evidência, também obtida na conta Beacon Hill, do pagamento da US$ 410 mil por parte da empresa offshore Infinity Trading, pertencente ao empresário, à Franton Interprises, ligada a Ricardo Sérgio.
(1)A dívida de Preciado com o Banco do Brasil foi estimada em US$ 140 milhões, segundo declarou o próprio devedor. Esta quantia foi convertida em reais tendo-se como base a cotação cambial do período de aproximadamente R$ 3,2 por um dólar.
(2)As empresas arrematadas foram a Coelba, da Bahia, a Cosern, do Rio Grande do Norte, e a Celpe, de Pernambuco.

Domingo, Maio 16, 2010

ARTAUD: TEATRO E CULTURA

TEATRO E CULTURA

Antonin Artaud

Nunca, quando é a própria vida que nos foge, se falou tanto em civilização e cultura. E existe um estranho paralelismo entre esse esboroamento generalizado da vida que está na base da desmoralização atual e a preocupação com uma cultura que nunca coincidiu com a vida e que é feita para dirigir a vida.
Ante de retornar à cultura, constato que o mundo tem fome e que não se preocupa com a cultura, e que apenas de um modo artificial é que se pretende dirigir para a cultura pensamentos que se voltam unicamente para a fome.
Mais urgente não me parece tanto defender uma cultura cuja existência nunca salvou uma pessoa de ter fome e da preocupação de viver melhor, quanto extrair, daquilo que se chama cultura, idéias cuja força viva é idêntica à da fome.
Acima de tudo precisamos viver e acreditar no que nos faz viver e que algo nos faz viver – e aquilo que sai o interior misterioso de nós mesmos não deve perpetuamente voltar sobre nós mesmos numa preocupação grosseiramente digestiva.
Quero dizer que se nos importamos todos com comer, e já, importa-nos ainda mais não desperdiçar apenas na preocupação imediata de comer nossa simples força de sentir fome.
Se o signo da época é a confusão, vejo na base dessa confusão uma ruptura entre as coisas e as palavras, as idéias, os signos que são a reapresentação dessas coisas.
Não é que faltem sistemas de pensamento; a quantidade deles e suas contradições caracterizam nossa vida cultural européia e francesa: mas desde quando a vida, nossa vida, foi afetada por esses sistemas?
Não diria que os sistemas filosóficos sejam coisas para se aplicar direta e imediatamente; das de duas, uma:
Ou esses sistemas estão em nós e nos impregnamos deles a ponto de viver deles, e então que importam os livros? Ou não estamos impregnados por eles e nesse caso não merecem nos fazer viver; e, de todo modo, que importa se desaparecerem?
É preciso insistir nessa idéia da cultura em ação e que se torna em nós uma espécie de novo órgão, uma espécie de segunda alma: e a civilização é a cultura que se aplica que rege até mesmo nossas ações mais sutis, o espírito presente nas coisas; e é apenas de modo artificial que se separa a civilização da cultura e que há duas palavras para significar uma mesma e idêntica ação.
Julga-se um civilizado pelo modo como se comporta e ele pensa do modo como se comporta; mas já quanto à palavra civilizado reina a confusão; para todo mundo, um civilizado culto é m homem bem informado sobre os sistemas e que pensa em sistemas, em formas, em signos, em representações.
É um monstro no qual se desenvolveu até o absurdo essa faculdade que temos de extrair pensamentos de nossos atos ao invés de identificar nossos atos com nossos pensamentos.
Se, falta enxofre à nossa vida, quer dizer, se lhe falta uma magia constante, é porque nos apraz contemplar nossos atos, e nos perdermos em considerações sobre as formas sonhadas de nossos atos, ao invés de sermos impulsionados por eles.
E esta é uma faculdade exclusivamente humana. Diria mesmo que é uma infecção do humano que nos estraga certas idéias que deveriam permanecer divinas, pois, longe de acreditar no sobrenatural, o divino inventado pelo homem, penso que foi a intervenção milenar do homem que acabou por nos corromper o divino.
Todas nossas idéias sobre a vida têm de ser revistas numa época em que nada mais adere à vida. E esta penosa cisão é motivo para as coisas se vingarem, e a poesia não está mais entre nós e que quando não conseguimos encontrar mais nas coisas a vida, eis que ela reaparece, de repente, pelo lado mau das coisas; e nunca se viu tantos crimes, cuja gratuita estranheza só se explica por nossa impotência em possuir a vida.
Se o teatro existe para permitir que a recalcada viva, uma espécie de atroz poesia expressa-se através de atos estanhos onde as alterações do fato de viver mostram que a intensidade da vida está intacta e que bastaria dirigi-la melhor.
Por mais que exijamos a magia, porém, no fundo temos medo de uma vida que se desenvolveria toda sob o signo da verdadeira magia.
E assim nossa ausência enraizada de cultura espanta-se diante de certas grandiosas anomalias e é assim que, por exemplo, numa ilha sem qualquer contado com a civilização atual a simples passagem de um navio contendo apenas pessoas sadias pode provocar o aparecimento de doenças desconhecidas nessa ilha e que são especialidade de nossos países: zona, influenza, gripe, reumatismos, sinusite, polinevrite, etc. etc.
E, também, se achamos que os negros cheiram mal, ignoramos que para tudo aquilo que não é Europa somos nós , brancos, que cheiramos mal. E diria mesmo que exalamos um odor branco, branco assim como se pode falar num “mal branco”.
Assim como o ferro aquecido ao branco, pode-se dizer que tudo que é excessivo é branco; e para um asiático a cor branca tornou-se a insígnia da mais estremada decomposição.

( * )

Isto dito pode-se começar a extrair uma idéia da cultura, uma idéia que é primeiro um protesto.
Protesto contra o estreitamento insensato que se impõe à idéia da cultura ao se reduzi-la a uma espécie de inconcebível Panteão – o que provoca uma idolatria da cultura, assim como as religiões idólatras põem os deuses em seus Panteões.
Protesto contra a idéia separada que se faz da cultura como se de um lado separada que se faz da cultura, como se de um lado estivesse a cultura e, do outro, a vida; e como se a verdadeira cultura não fosse um meio apurado de compreender e de exercer a vida.
Pode-se queimar a biblioteca de Alexandria. Acima e além dos papiros, existem forças: podem nos tirar por um tempo a faculdade de reencontrar essas forças, não se suprimirá a energia delas. E é bom que desapareçam algumas facilidades exageradas e que certas formas caiam no esquecimento, assim, a cultura sem espaço nem tempo, e que nossa capacidade nervosa contém, ressurgirá com redobrada energia. E é justo que de tempos em tempos produzam-se cataclismas que no incitem a retornar à natureza, isto é, a reencontrar a vida. O velho totemismo dos animais, das pedras, dos objetos encarregados de fulminar, das roupas bestialmente impregnadas, em resumo tudo que serve para captar, dirigir e derivar forças é, para nós, coisa morta de onde só sabemos agora extrair um proveito artístico e estático, um proveito de fruidor e não um proveito de ator.
Ora, o totemismo é ator porque se mexe, e existe para atores; e toda verdadeira cultura apóia-se nos meios bárbaros e primitivos do totemismo, cuja vida selvagem quero adorar, isto é, uma vida inteiramente espontânea.
O que nos fez perder a cultura foi nossa idéia ocidental da arte e o proveito que disso tiramos. Arte e cultura não podem andar juntas, contrariamente ao costume universal!
A verdadeira cultura age por sua exaltação e sua força, e o ideal europeu da arte visa jogar o espírito numa atitude separada da força e que fica assistindo a sua exaltação. É uma idéia preguiçosa, inútil, e que, a prazo curto, acarreta a morte. Se as múltiplas voltas da Serpente Quetzalcoatl são harmoniosas é porque expressam o equilíbrio e os desvios de uma força adormecida; e a intensidade das formas existe apenas para seduzir a captar uma força que na musica, desperta um lancinante teclado.
(...)
Romper a linguagem para tocar na vida é fazer ou refazer o teatro; e o importante é não acreditar que esse ato deva ser algo sagrado, isso é, reservado. O importante é crer que todos podem fazê-lo e que para isso é preciso uma preparação.
Isto leva à rejeição das limitações habituais do homem e dos poderes do homem e a tornar infinitas as fronteiras do que chamamos de realidade.
É preciso acreditar num sentido da vida renovado pelo teatro onde o homem impavidamente torna-se o senhor daquilo que ainda não existe, e o faz nascer. E tudo que ainda não nasceu pode vir a nascer contanto que não nos contentemos com ser simples órgãos de registro.
Do mesmo modo, quando pronunciamos a palavra vida deve-se entender que não se trata da vida reconhecida pelo exterior dos fatos, mas dessa espécie de frágil e turbulento núcleo no qual as formas não tocam. E se ainda existe algo de infernal e de verdadeiramente maldito nestes tempos, trata-se desse demorar-se artístico sobre as formas ao invés de ser como os supliciados que se queimam e que fazem signos em suas fogueiras.

Antonin Artaud in O teatro e seus duplos.

ARTAUD, NIETZSCHE E A FRAGILIDADE E CONSISTÊNCIA DAS PALAVRAS

ARTAUD, NIETZSCHE E A FRAGILIDADE E CONSISTÊNCIA DAS PALAVRAS

Odemar Leotti

Cada palavra é uma borboleta morta espetada na página: por isso a palavra escrita é muito triste. Mario Quintana.


Cuidemos de tudo que decida nossa vida. Nossa vida? Não a temos pronta. A temos sempre sendo, sempre sendo e sempre tecida no dia a dia. Esse fazer constante da vida pelas palavras, através das palavras tornadas signos encadeados. Feita de palavras, mas antes de tudo dentro de um espaço político. Político entendido como um campo de guerra de todos contra todos. É nessa interface entre as palavras e as coisas que se dá o teatro político. Entendendo nesse caso política como continuidade da guerra por outros meios em uma terra conquista e usurpada pela força. A vida como “lugar da improvisação e da rigorosidade matemática, como no teatro. As coisas estão por aí, devemos buscá-las procurando, como”Artaud procura uma linguagem através dos signos, de gestos e objetos, com a ‘importância dos sonhos’”. Para ele, a reunião que cada qual faz da palavra obedece a leis, diria a regras de sua aparição, segundo Foucault. Leis e regras são coisas dos homens e o mundo nasce das semelhanças das palavras. A diferença surge das analogias que tomam assento em novas territorialidades violentando-as e tornando-as contaminada de novas territorialidades da ocupação de seu espaço. Esse espaço das palavras sofre com essas capitulações, novas analogias de sua formação e é dentro dele que os corpos se movem e é aí que as relações que emanam de cada imanência se cruzam, se resvalam, se contaminam e formam novas territorialidades diferidas no espaço e no tempo. Novas palavras, novas violações da natureza das coisas. Ideogramas da China, hieróglifos egípcios como afirma Artaud. Eu acrescentaria que para nós as formas das escritas Astecas, Incas, da infinitude dos mistérios das múltiplas culturas das sociedades aqui existentes antes do ato de conquista. Estas formas de vida forram submetidas pela guerra de conquista e depois essa guerra tomou forma em guerra dos sentidos. Tudo se tornou um emaranhado de sentidos, mas predominou como saber dominador, o do invasor em sua tentativa de supressão do espaço das multiplicidades, tanto das culturas quanto de sua transmigração para o interior de cada um. O que podemos dizer que primeiro foi a guerra depois a política como sua continuidade.
Não podemos generalizar a vitória de um lado, pois as contaminações se dão de todos os lados no embate dos sentidos e de suas apropriações infinitas no tempo e no espaço. Foram contaminados pelos europeus, mas estes se contaminaram com os saberes e podemos dizer inclusive fizeram uso dessas culturas em situações complicadas que trazem e trarão grandes problemas, tais como o uso de drogas adquiridas com essas culturas. Portanto antes de a eles se “submeterem” os submeterem a novas analogias misturadas e disfarçadas pelas simulações, porém mesmo não sendo intencional, podemos dizer que o próprio ato de apropriação se dá com cada forma do estabelecimento das leituras e das condições de sua produção e não unicamente como quer um tipo de historiografia. É nesse palco improvisado e rigoroso em suas formas análogas das palavras e dos símbolos que nos sentimos sendo, nesta terra mundializada em tantos mundos e em suas digladiações simbólicas.

"O Pesa nervos", “a vida é queimar perguntas”, o que deve reportar a Pedro Abelardo, [30 nota] dando um passo além de Descartes: a dúvida não deve ser apenas metódica até alcançar a evidência, mas a atividade mental deve ser levada a um tal ponto de interrogar-se que chegue à "destruição da evidência".

Pode-se observar nisto tudo a palavra dançando na linguagem, tirando dela toda a sua solidez e, mostrando toda sua bela imperfeição. Instauro-me no nada, no solo inseguro da linguagem que me desmonta, me destitui e me faz ser um eterno guerreiro da vigília do entendimento do mundo. Mundo foi feito para ser feitura constante onde eu seja seu protagonista da feitura. E isso não para de ser assim. Se não fazemos de forma salutar as coisas nos vêm de forma perversa e destruidora. Como nos afirma Hölderlin, as palavras servem para fazer a vida e para enunciar a morte. Vivemos nessa vertigem constante. Não podemos entregar sua feitura a outrem. O estanhar do mundo é uma constância na luta em torno dos sentidos. O que nos oferecem como forma pronta pode ser nossa destruição naquilo que nos caracteriza como ser pensante. Portanto a evidência deve ser usada e descartada ou nem mesmo usada, porém o importante é que não aceitemos nada com evidência definitiva, e devemos sim perseguir a resposta e massacrá-la com novas perguntas. Os sentidos são como uma teia de aranha: é frágil a ponto de se desmanchar a um leve toque de dedo, porém tem a consistência e a solidez ao enfrentar a mais forte tempestade. Ao encontrarmos uma teia em um ramo de árvore e o a tocarmos se desmancha facilmente, porém se quebrarmos essa galha e a jogarmos a um mar enfurecido, a teia flutuará e se condicionará no relevo de suas ondas e sairá intacta. Essa metáfora da teia, nos presenteada por Nietzsche, serve para entendermos que a vida é feita de signos, de sentidos produzidos na linguagem, e, portanto tem a fragilidade de se desmanchar a um pequeno toque e a consistência de suportar as mais terríveis avalanches. A vida é produto de nossa eterna vigília e tessituras infinitas. É isso a vida: o nada e o ser-no-mundo, sendo feito e refeito onde somos artistas de nós mesmos.

Quarta-feira, Maio 12, 2010

DOS PÉS À CABEÇA: DA TERRA À SUA NEGAÇÃO.

Dos pés à cabeça; da cabeça aos pés: o mais perto é o mais longe. Volte filho para onde toca seus pés. É daí que você se faz e é aí que deve morar. Longe daí ti ensinaram a viver. Nuvens ti carregaram para longe do torrão de sua sabedoria. Poeiras ficaram distantes e a nostalgia ti toma invadindo seu corpo, pois seus pés tão perto estão tão esquecidos de onde pisa. Aí o pisar perde seu tato com a terra sua gestadora e alimentadora. De onde vem a energia do seu corpo filho. Vem de sua mãe e de seu pai. A terra alimenta-se da energia do pai o sol. A energia penetra na pele, nas folhas, nas águas, nos frutos, nos animais e também em você. Esses frutos penetram pela sua boca e ti alimenta. Distribui por toda parte do seu corpo e despeja do volta o que deve ser retornado à terra. Porém todo esse ciclo foi quebrado filho. Seus antepassados despejavam seus dejetos nos matagais então eles eram revolvidos pelos insetos, pelos besouros, formigas e outros animais que se encarregavam de redistribuí-los em suas devidas funções de fazer retornar a potência às sementeiras e com elas fazer germinar de novo a vida: o eterno retorno do mesmo, da sua devolução aos insetos, dos insetos às sementes, das sementes à germinação da plantinha, da plantinha à recomposição das matas, daí as flores, das flores à polinização, obra de arte da divindade das abelhas. Daí a multiplicação se manifesta: crescei e multiplicai disse o mestre. É meu filho, mas você achou mais fácil repetir dogmas do que repetir a vida. Os dogmas mofam a vida e a vida em sua repetição é a refazenda que vai refazendo tudo. Portanto o mundo passa pela sua boca e sai para refazer o mundo numa eternidade de instantes que compõem a vida. Cada cultura em cada lugar inventou sua maneira singular de lidar com o refazer da vida, pois a vida era o sentido maior e todas elas entendiam que o maior está presente em pequenos instantes. Que eles brotam coma água nas minas e que se produzem por fluxos contínuos. É somente isso que se pode chamar de continuidade: o instante maravilhoso do refazer dos instantes, dos gestos numa eterna ecologia dos seres: sol, terra, energia distribuída, alimentação, dejeção e reprodução energética em consonância com os insetos, as sementes, fazem a maravilha dos sêmens que se acoita com o circular da vida.
Porém temos outra história que precisa ser contada filho. Há muitos anos, ou seja, há quinhentos anos mais ou menos antes do calendário inventado como sendo o cristão, houve uma grande ruptura na nossa forma de pensar a vida. Foi nesse instante que sofremos um deslocamento dos conceitos de vida: saímos do instante maravilhoso do eterno retorno e do refazer do novo para um tempo da postergação. O que era a eternidade do instante passou a ser considerado como de acumulação. A eternidade passou a ter um preço. O preço seria sua negação. Negar o instante maravilhoso onde a vida se refaz era a maneira de alcançarmos uma essência que estava oculta. A partir daí uma verdade estabelecia as condições de sermos sujeitos nessa vida. Portanto fomos dos pés para a cabeça. O lugar onde os pés sempre estiveram foi considerado como do erro e que deveria ser esquecido e que dele deveríamos tomar a maior distância possível. Passamos a viver uma história que nos tornava animais da promessa. Nossa vida deixava de ser a do instante maravilhoso dos fluxos e passaríamos a viver negando seus impulsos para podermos alcançar uma purificação e buscarmos a partir daí o mundo eterno, onde não precisaria mais haver a ecologia que falamos anteriormente. Por falar nisso você notou que Noé não levava os insetos em sua arca? É porque o mundo prometido desse pensamento não ia mais precisar deles, pois a eternidade do instante que precisava deles foi sendo deixada de lado. A vida agora era de negar nossos impulsos, pois a austeridade seria a forma de aproximarmos cada vez mais da vida: em suma, negar a vida do agora era a única forma de adquirirmos uma vida que sempre nos foi postergada. Entramos então numa filosofia da história. A vida agora aparecia de forma que todas as experiências do mundo fossem inimigas da busca da perfeição, pois eram consideradas como fruto de erros, de superstição. O mundo da opinião era considerado como da degeneração humana e do mundo. O homem virou um ser escravo de uma forma de saber que negava seu maior potencial que é a energia que recebe e que transforma em coisas alegres, gostosas como cantar, gritar, comer, fazer sexo e com isso ir refazendo a vida como era antes. Lembra do começo da explicação? Depois conto mais. Inté.