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sábado, maio 13, 2006

A “MÁ CONSCIÊNCIA” E O SENTIDO HISTÓRICO ALIMENTADOR DA DÍVIDA HUMANA - Odemar Leotti

Sobre a diferença entre o devedor e o culpado
A proposta de Giacóia Junior, ao produzir sua interpretação da Genealogia da Moral de Nietzsche, em sua obra Para uma genealogia da moral, é a de “reconstituir a gênese da consciência moral”, que nós acostumamos a entender como Consciência? Coma foi produzido esse conceito?
Memória, dívida e promessa
“Mesmo essas pessoas, enquanto sujeitos de direito, são também um produto da pré-história da humanidade, o resultado de um longo e penoso processo de auto-conformação. Para que uma determinada espécie do gênero animal pudesse desenvolver a capacidade pressuposta por toda obrigação – a saber, a capacidade de prometer e manter a palavra empenhada – foi primeiro necessário que se constituísse nela uma faculdade sem a qual a capacidade de prometer seria impossível:a faculdade da memória”. [grifo meu]. P. 39.1.
Neste caso, “prometer e manter a palavra empenhada” seria comparado com o que Bauman (2001) entende como uma característica da modernidade líquida. É o que chama de procrastinação. Buscando a raiz desta palavra Cras é entendido como adiamento. É inventar um espaço inexistente, ou seja, o espaço do amanhã como lugar da efetivação dos desejos. Portanto procrastinar seria o mesmo que adiar, prometer uma vida efetiva fora do espaço vivido, e re-colocada num espaço-tempo não existente. Este seria o motor do funcionamento deste animal que promete e mantém a palavra empenhada. Com isso alimenta uma ritmização do tempo, de forma artificial, que secularizado toma uma tal positividade que parece já pertencer de forma natural em nosso funcionamento do desejo. Ao esquecimento desta implantação que se dá ao longo da história humana, garante uma funcionalidade do ser como busca de um espaço-tempo fora do agora. Para a conquista deste espaço-realização é preciso abdicar de si em busca de um “eu perfeito”, estável superando toda dúvida, toda incerteza. É a busca de um ideal ascético, ou seja, um ideal fora daqui, que não seja mais cético quanto ao futuro. Para isto torna-se preciso constituir o futuro de uma auto-estrada pavimentada e segura. O esquecimento passa a produzir a ilusão dessa caminhada e garante o dispositivo de funcionamento da vontade de busca de um futuro melhor, como força da assimilação anímica. A constituição da faculdade da memória garantiu o processo de civilização do homem produzindo nele “a transição do hominídeo instintivo ao animal social: criar um animal ao qual seja lícito fazer promessas”. 9p. 38.4. “criar uma memória da vontade que pudesse ter mantido em suspenso a potência do esquecimento ativo”. 40.1.
Imprimir algo no entendimento do instante:
“Imprimir algo nesse entendimento do instante, entendimento em parte obtuso, em parte aturdido, nessa vivente capacidade de esquecimento, de tal maneira que permaneça presente?”. Segundo Giacóia Junior “talvez não haja em toda a pré-história do homem nada mais sinistro e terrível que sua mnemotécnica. Grava-se algo a fogo, para que fique na memória: somente o que não cessa de causar dor permanece na memória – este é um axioma da mais antiga (por desgraça, também da mais prolongada) psicologia que existiu sobre a terra.” 40.2..
A criação da técnica mnemônica ou a própria memória: não de desejo como impulso, mas como empuxo.
Não devemos entender como já existindo naturalmente uma memória à qual seria inscrito “preceitos particulares numa memória já desenvolvida ou mesmo existente em estado de latência”. O que mais de grave existe em tudo isto, segundo G. Junior “é o da criação de uma técnica mnemônica, por meio da qual se desenvolva no homem a própria memória” 40.3 .
A dor como o mais poderoso auxiliar da mnemotécnica. 40.4
O crédito e o débito como forma de obtenção dos padrões mais elementares da memória. O querer e o fazer que “estão na base de toda promessa e da vida em sociedade. (...) mantendo-os na memória, permitiram ao homem primitivo tornar-se um animal político. Cumprir obrigações constitui, portanto, o pressuposto básico da vida em comum sob a forma da sociedade e da paz.” 41.1.
Dever é estar em falta com um conhecimento que nos dá significados, que corresponderiam à formação do ser, construção de sua consciência. Para isso é preciso se ver numa história que nos faça nos entender como um animal que é feito de promessas de um vir-a-ser. Ao invés de ser, nos vemos num serei. No lugar do presente, do agora, do fazer, nos produzimos numa procrastinação do tempo, num amanhã como espaço abstrato onde depositamos nossos desejos. Num farei um dia. Num serei um dia. Num se Deus quizer, num o que será quando crescer, progredir, desenvolver, evoluir, melhorar, etc. são essas noções que impregnam nossas narrativas, constituindo-nos como ser de um conhecimento que nos inteira, nos completa. Do nada ao ser sempre com a noção de uma falta, como num sentido de dívida com o credor. Estar em falta é estar à mercê de uma penalização.
Daí a instituição da vida como uma pena a ser cumprida até o pagamento da dívida, próprio de quem nasce com um pecado já na origem, ou da tentativa de ruptura com este saber e da ingenuidade metafísica que cobra a consciência histórica como objetivo do ser. Ser consciente é a forma de pagar a falta de conhecimento “verdadeiro”. Por isso foi criado a ciência do homem, o lugar com autoridade de fala, para exercer a descoberta do conhecimento “verdadeiro”. Sendo assim provada sua essência primordial, original, pura deve ser esta essência a prova de que é o “conhecimento” que deve ser considerado como científico e que deve funcionar como norma e tornar-se parâmetro da condução humana. Estabelecem-se, após esta comprovação, instituições para cuidar de sua implantação.
Como este mecanismo não conseguiu se livrar de sua narrativa da falta, da relação credor-devedor estamos nós mais uma vez vendo-nos numa encruzilhada dos sentidos de vida. Temos uma modernidade totalmente sem destino, um barco à deriva e uma crise sem precedentes. O que nos responde os que viveram todos estes tempos, mergulhados em seu sono dogmático da busca de uma vida perfeita? O que andam fazendo aqueles que prometeram uma Canaã se esta ao invés disso ser uma verdadeira cena de tragédia, miséria, fome, devastação, degeneração ética.
A modernidade foi instaurada dentro do que Foucault entende como um sistema de penitência. A educação exerceu o papel de formar nos sentidos das pessoas, desde tenra infância, a noção de que deve suportar a carga de deveres, a partir de uma disciplinarização. Como que já nascessem em falta, ou seja, faltando um conhecimento verdadeiro, que lhe dêem um lugar de autorização de ser, de funcionar legalmente na sociedade. A aqueles que não conseguem se entender nesta falta sobra-lhe a punição, o castigo como forma de restauração para garantir seu espaço social. Segundo Giacóia:
“A restauração se dá pelo castigo. [...] O devedor tem de padecer porque não cumpriu a palavra, porque rompeu um pacto e ainda não entra aqui em cogitação por ter agido de outra maneira. [...] Ele deve ser castigado para aprender, mais ou menos da mesma maneira como alguns pais, até hoje, ainda castigam seus filhos.” 41.2.
Não devemos nos limitar a entender o castigo como sendo usado somente com o reeducando, e sim aquele que nasce, já o faz com falta, já nasce em falta. Para entender isto, não podemos ficar presos a leituras já dentro deste sistema de pensamento, a unidades literárias tidas como disciplina. É preciso voltar ao século IV antes de Cristo e ver a crise da pólis, e logicamente do que lhe garantiu emergência, ou seja, a palavra tornada pública. A palavra no instante de sua crise toma forma, pelas mãos dos Sábios filósofos ascéticos, de mera aparência. Estar no mundo das palavras seria o mesmo que estar no mundo falso, da aparência. Para Parmênides e Platão, o mundo das opiniões, ou do uso da palavra como forma de interpretação e criação dos sentidos de vida, em sua forma poética, não passava de imaginação. Entendiam que esse mundo faltava, para sua perfeição, uma busca da sua Idéia verdadeira, uma Alma Suprema, com afirma Nietzsche, parece que os filósofos acreditavam na existência de uma Qualitas Oculta, ou seja, parece que existia uma qualidade primordial perfeita, que foi degenerada pelo uso coletivo da palavra, e que sua pluralização interpretativa levou o mundo ateniense à sua crise e à derrocada da pólis. Urgia, para estes filósofos, o bater em retirada deste mundo em que a palavra exerça tanto poder. Elas eram, segundo os filósofos, apenas empecilhos à busca da Luz verdadeira. Inicia-se com este ato, o stilo de vida que configurará o que entendemos como pensamento moderno. É por isso que Foucault afirma em sua obra A ordem do discurso, que se quizermos entender a ruptura do pensamento ocidental temos que sair desse costume que fomos ensinados de que eles estão no Renascimento. Se quizermos entender a ruptura do pensamento ocidental, devemos ir ao século IV, no exato momento em que as formas culturais são banidas como forma de construção de saber e em seu lugar surge o Ideal ascético. Ou seja, o homem nasce em falta. Já nascemos com falta e se quizermos existir temos que nos penitenciar rumo ao conhecimento verdadeiro, original que nos fará completo e perfeito. O que as chamadas Ciências Humanas fizeram a não ser nos educar para a busca da perfeição? É a constante vigília da correção, do exame, da prova, da disciplinarização do corpo. É enfim toda esta parafernália dos estabelecimentos escolares a serviço deste ideal ascético em suas colorações várias e numa única permanência: a busca da verdade primordial. Em lugar da criação a descoberta. Em lugar da fertilidade plural a imposição de um saber único e transcendental. Eis aí o pensamento moderno. É a obrigação instituída. Como afirma Giacóia Junior:
“O obligatio por uma palavra empenhada. (...) O ser sujeito de uma vontade própria, superior às forças da natureza, ser capaz de autodomínio; de poder manter intacta a cadeia da vontade, isto é, o nexo causal entre um ‘eu quero’ e um correspondente ‘eu farei’ (...) sem que se rompa a cadeia causal do querer e do continuar querendo”. (p,42)
A dívida é o preço de um tal poder e uma tal liberdade. “e de modo algum, consciência de culpa. Ela é o privilégio distintivo do indivíduo soberano, da autarquia consistente no domínio da vontade.” 42 . Toma positividade uma forma de ser que coloca a originalidade perfeita como que cobrando as aventuras do homem como conduta irresponsável e que deve ser penalizada. Ao mesmo tempo deve preparar os que nascem para suportar o farso de sua falta. “Espiritualizando, de modo completo, a figura do credor, como forma de fazer sofrer o próprio devedor”. Este poder instituído numa originalidade essencial, suprema e perfeita, cria a partir de uma moral que institui um animal devedor e que se promete em holocausto à busca de sua forma perfeita e de sua abdicação da forma imperfeita por faltar a essência verdadeira que deverá dedicar sua vida para busca-la. Isto não foi privilégio unicamente do cristianismo e sim de todo conhecimento moderno. Para o autor.
“No âmbito da interpretação moral da consciência do dever, o credor deixa de ser considerado como o ancestral poderoso, que tem a mesma natureza do devedor, passando a figurar como o seu oposto, como um ideal inatingível pelo devedor.” P. 49.2.
Do impulso ao empuxo
A inversão da direção dos impulsos hostis e a canalização desses impulsos contra si próprio: “a via substitutiva por excelência vai consistir em fazer sofrer o próprio devedor. Dessa maneira os maus instintos podem se exercer em impedimento”.49.1. Nesse aspecto da falta é importante ressaltar como comporá o discurso iluminista e subseqüentemente o pensamento moderno em suas versões liberal e marxista, onde coloca o homem, como o não pensante de forma verdadeira. Assumindo-se como falta, institui o ideal ascético como forma de busca das formas ideais de pensar. Vejamos como Giacóia Junior nos informa sobre a falta:
“Esse nível de espiritualização também é obtido com base numa reinterpretação, em que a antítese entre Deus e o homem é enquadrada na relação débito-crédito: só que, nesse deslocamento, a existência do devedor passa a ser vivenciada como falta, porque reconhece sua natureza própria como inverso da perfeição, como sublevação contra a lei do credor ideal. Isso implica uma transformação na pessoa do poderoso ancestral dos tempos primitivos. Agora, o próprio antepassado é visto sob a ótica do negativo, já que é o responsável pela existência culpada do devedor”.
Aqui podemos vislumbrar a questão do pecado original. Entendendo a ancestralidade como uma falta para como o credor ideal, ou seja, a perfeição perdida, degenerada, própria do sentido de tempo como decadência e da necessidade de uma retomada da busca do aperfeiçoamento da vida, leva à instituição de um modelo moral ideal que serve de parâmetro para se medir a sentido de falta de cada indivíduo em relação à completude ideal. A busca desta forma ideal garantiu este sentido de procrastinação, através da criação de um animal da promessa. Quem não atendesse à busca desta forma de animal completo ou em dia com o ideal da busca, feito pelo coletivo social da civilitate, ou seja, da cidade, da pólis, estaria em falta com este tipo de fazer da vida, da prática deste tipo de saber, portanto deste tipo de poder. Estaria em falta com o poder político, em falta com o coletivo.
Natureza como culpada sob e o estigma da negatividade.
Alias, a natureza em geral recebe o estigma da negatividade. Podemos pensar aqui no exemplo de Adão e na doutrina do pecado original, bem como nas diversas formas historicamente conhecidas de demonização da natureza. 49/50
O que nos apresenta como verdade é esta redução do estado-natureza à negatividade da falta. Falta neste sentido seria o da natureza que necessita do conhecimento idealizado como a supremacia do ser, a alma suprema platônica que seria a finalidade de busca. Ao ato da aquisição desta forma de saber compreenderia o ser estendido ao Estado da Razão em toda sua pureza que outrora fora perdido, graças à degeneração produzida pelo mundo da opinião. Este entendimento foi produzido no momento de crise da palavra como de domínio público, próprio da formação das pólis gregas. Saindo do domínio dos escribas que tornavam a escrita e seu uso como privativo do soberano e ao seu serviço. Com a crise do modelo soberano, do antigo reino micênico surge num efeito discursivo que se estendeu por 700 anos (1400 aC. a 800 aC.) e, se materializa com a instituição das cidades-estados gregas. A publicização das palavras como força de construção da poética do mundo.
Espiritualização da ancestralidade. P. 50.1De algo natural a algo idealizado abstratamente. Algo espiritualizado. O dever passa a ser assimilado, a partir de uma memória perversa a se instituir na subjetividade humana como dívida, até a auto inserção de si como um sujeito da culpa, do sentir-se culpado pelo não cumprimento do dever. Para Giacóia, um ser da falta, da dívida, “(...) inteiramente convergido para o interior da consciência do devedor, o sentimento de dever começa a cavar abismos, adquirindo a profundidade da culpa”.(P. 50). Para este autor, estamos cavando em nossa alma estes labirintos que nos fará sentir em cena como mártires de nossa culpa. Aturdido pelo opressivo sentimento de uma falta que tem raiz em sua própria natureza, a esse movimento vivo em que se converteu o devedor-culpado só resta agora o suplício, já que sua existência é falta a ser expiada. O sentimento de falta ao auto-flagelo à construção da via da emergência do remorso (a mordedura na alma produzida pela moral da culpa). “É desse tormento de auto-flagelo que se nutre o remorso, envenenando a alma do devedor”. 50.3. Uma forma de sentimento é reassentada na alma do ser. O ressentimento. O remorso é nos instituído, como produto da falta para com a origem pura, como definidor do termo nietzschiano: ressentimento. Nesse ressentimento, tem origem a idéia de uma dívida eterna para com a Idéia, para com a Alma Suprema, para com Deus, para com a Luz, para com a Razão verdadeira, para com a Consciência Histórica, que o devedor transforma em instrumento de tortura, encontrando assim um miserável subterfúgio para aliviar a carga dos impulsos hostis. O impulso dever ser expulso do ser, a vontade do corpo deve ser controlada. Deve ser construída e implantada uma nova forma de sentir. É a isso que podemos entender a nova forma da sensibilidade. Uma sensibilidade redistribuída que nega o impulso e re-constrói a vontade num novo sentir, num ressentimento. Após esta implantação perversa, de uma memória instituidora da subjetividade humana, o homem ressentido pode dar um sentido ao sofrimento causado pela repressão inelutável. oleotti@bol.com.br
Foto:www.maricibross.com/angustia_top.jpg

2 Comentários:

  • UAUUUU!!!Esse é o Odemar, cada dia melhor...
    Professor seus textos são verdadeiras "jóias".Este em especial comecei a ler e não parei mais. Deixei clientes no balcão da farmácia esperando enquanto eu lia.
    Atender sempre aos impulsos não é possível, deixar de conhecer os empuxos que a “moral” nos impõe depois de ter aulas contigo também é impossível. Sofremos por uma ignorância imposta, e o pior, da forma que nos foi repassada fica a impressão que ela (a ignorância) é uma opção nossa.
    Agora vou tomar mais cuidado para não pisar nas rosas presentes, antes de você Mestre, programava jardins babilônicos inexistentes. Hoje sei...A vida é agora.
    Jesus Cristo foi generoso... Você é generoso.E eu gosto de pessoas que se doam despreocupados, pois sabem que não precisa esconder o seu saber, ele só tem sentido ser for “distribuído” já.
    Hoje sei que não preciso buscar o meu "EU" perfeito, ele não é um desejo meu, é uma construção que me impuseram, e que eu ainda não tinha percebido até conhecer você...
    Sou o que sou e não me importa mais buscar constantemente o que serei...

    Por Anonymous ZICO, às 8:22 PM  

  • Caro amigo Odemar,
    recebi a indicação desse blog nas minhas mensagens do Orkut e resolvi visitar (o texto era muito interessante) e confesso que gostei muito do blogger.O adicionei aos favoritos e vou visitá-lo sempre. Parabéns os texto tem muita qualidade.
    Um abraço
    Emilia Couto emiliacouto@oi.com.br

    Por Anonymous Emilia Couto, às 10:23 AM  

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