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sexta-feira, março 21, 2008

AGUA RIZOMÁTICA -VIDA DESENCANADA - Odemar Leotti

Gostei da foto mais pelo enigma que me causou que pela frustração de tentar defini-la. Acho que ela já é em si uma poética. Lembrei de várias coisas lidas para lidar com ela. Mas esta continuou majestosa em seu poder fluxante. Fluxos foi o que vi ao lembrar Hölderlin que fala da vida como fluxos. Ele viveu na Alemanha, em fins do 18 e início do século 19, contemporâneo de Kant, Goethe, Schiller, Schelling. Viviam num percurso de tempo onde ainda o pensamento encanador, em sua versão neo-platônica, dos sentidos estava em estado magmático. Portanto ainda não se constituía na fortaleza encanadora do saber moderno. Foi um conselho de Nietzsche que levou-me a ler seu livrinho Hipérion, onde afirma coisas interessantes sobre conceito de vida. Essa água viva, ou água vida, se a tomarmos como metáfora, ora metáfora, ela é vida sim e devemos nos expressar pela sua força de potência. Portanto ela não segue o cano por sua vontade, logo o encanamento não encana sua vontade e sim as massas. Ou melhor, encana as duas coisas, mas a vontade permanece em estado de atitude de possibilidade de fuga da sua forma impossível de ser reduzida, ou seja, vida encanada. Por outro lado, nós homens não conseguimos proteger nossa vontade, ou ela foi implantada após uma redistribuição de seu funcionamento? É esse nosso elemento o alvo da implantação perversa que criou a modernidade. A água não fica indo atrás de sua origem, ela segue seu ciclo e explode quando sufocada. Talvez seja disso que surgiu o pensamento de que não são as águas que invadem as margens, são as margens que invadem a água. Portanto, não são as águas que estouram os canos, pelo contrário são os canos que engessam, ou tentam encanar a possibilidade de estendimento das águas.
Segundo Bauman, a água pela sua propriedade líquida, tem como característica ser volátil ao tempo e conformadora ao espaço. Às tentativas de seu aprisionamento a um caminho se depara com sua volatilidade e sua conformação, porém com sua propriedade de se enfiar nas menores fendas e as arrebatarem produzindo por meio dessa potência aquilo que parecia uma condenação eterna. Assim podemos dizer que ela é volátil e se adapta a qualquer circunstância de formas, porém à primeira fragilidade do cano ela jorra alegremente para a vida. Ela passa então a se determinar por si mesma. E a vida, e o homem? O que determina o homem moderno na questão de sua liberdade e de seu limite? Quem é o homem, o que é o homem quando ele não mais se determina por nenhuma transcendência ma apenas por si mesmo? Aqui deparamos com uma confusão que se faz, quando ficamos entre o ser racional ou ser chamado de irracional. O homem tem necessidade de construir uma racionalidade única e definitiva ou nenhuma racionalidade. Tem que conviver com uma busca da essência ou nenhuma. Eis aí um ponto que gera conflito. Os que crêem numa via única da metafísica e chamam de irracional os seus detratores e os detratores que temem afirmar a necessidade da essência. Foucault nunca negou a necessidade da razão. O que ele condena veementemente é o sonambulismo histórico que criou esse vir a ser metafísico do século 18 e o materialismo dialético que se utiliza de uma criação literária que ser quer única e verdadeira e se coloca em oposição a tudo que seja humano. Para Deleuze não há esse binarismo de verdade e negação da verdade como espaço único de produção da vida. Para ele as duas formas pertencem a dois espaços. Logo, não são contraditórios e sim diferentes, e assim devem se auto tolerar. Portanto, precisamos sim de essência para viver. As coisas não se oferecem como coisa em si, e sim como necessidade de significação. Mas a distância entre a fabricação contingente de essencialidades, com suas diferenças espaciais e temporais são realidades. O que não se pode é dedicar nossa existência a uma estratégia metafísica transcendental monocórdia, única e que encana toda possibilidade de hastes criadoras de novas ramificações de vidas em suas multiplicidades morfológicas.
Para Hölderlin "está em jogo a realização do homem como um aviar-se para a totalidade”.Abandonará a si mesmo como fruto de os pré-cursos para abandonar-se à 'terra incógnita' da totalidade. Esse sair do cano poderia ser referenciado a ‘esse sair de si a fim de abrir-se para a totalidade’ é que dimensiona a essência humana como 'a via excêntrica, aquela que o homem percorre, universal e particularmente'. O que a água quer garantir é o percurso e a possibilidade de realização de seus fluxos impulsionadores. O que esperaria o homem da vida? Uma origem e uma finalidade e a conformação a uma encanação transcendental que tem uma essência originária e sua busca nos tempos finais. Aí vale a pena ter os sentidos presos ao encanamento eterno rumo ao jorro na usina final? O que se quer colocar é que ao invés de haver uma vida como autodeterminação do percurso, das condições de cada um situar-se na terra incógnita e a possibilidade de criação para garantir a vida em seus fluxos o que vemos no discurso moderno? A educação no lugar da formação como apreensão do percurso. A via de formação dá lugar à educação como uma vida encanada na verdade metafísica iluminista-platônica. A vida requer a contínua formação para o percurso e não para o fim de uma estrada, de um leito de rio. Determinar o futuro requer a anulação da vida em seus fluxos, a paralisia de um percurso em suas peripécias. A água livre escolhe o caminho a seguir, enquanto quando é encanada fica presa a um destino, sendo anulada em sua possibilidade de vida com seus mistérios e acasos. Fica imune do perigo do obstáculo, mas é direcionada a um fim. O seu percurso fica restrito a um fim. Perde sua possibilidade de vida como percurso, como sendo aí a vida mesmo. Numa carta de 1794, Hölderlin afirma o seguinte: "Ademais acabo de voltar da região do abstrato na qual cheguei a me perder e a perder todo o meu ser". Para ele a profundidade está na superfície das coisas e não em um sistema de pensamento. Como a água está no cano sempre na possibilidade de jorrar para a vida, os homens estão no encanamento pronto a jorrar-se também em vida. O sistema tem suas instituições que ficam vigilantes consertando o encanamento para que não dê vazamento e possa impossibilitar o caminho dos homens rumo à usina final, ou como explicam: a um progresso humano. A água abre mão do caminho seguro para buscar o caminho venturoso. Unidade como ventura perdeu-se para nós, afirma Hölderlin. Segundo ele, "o ser, no único sentido da palavra, perdeu-se para nós e nós precisamos perdê-lo quando ambicionamos, quando combatemos". Viver seria um arrancar-se da totalidade na unidade, seria um arrancar-se de nós mesmos, seria uma liberdade dos instantes múltiplos e não uma liberdade dos tempos finais que encana a vida e a não quer mais para o presente como uma ventura, com seus perigos. Numa compreensão de Maria Cavalcante que prefacia sua obra, o aviar-se na conquista de nós mesmos se dá por uma via excêntrica, que é o pensamento vital para Hölderlin, nos coloca diante de uma existência nômade. Para ele o que justifica a apreensão nômade da existência, pergunta Cavalcante? "O Sedentário permanece nômade quando, para compreender, precisa caminhar. É na compreensão que o nomadismo excêntrico do homem se cumpre, mesmo num mundo incapaz de consagrar o passado e pressentir o futuro. O homem não nasce para cumprir uma via excêntrica somente, mas para se realizar no fazer constante e descontínuo dessa via. Ela se dá não a partir de um centro a procura de um norte e sim de um norte produzindo seus centros, assim falou Hypérion pela boca de Hölderlin. Um percurso onde precisamos compreender para construir e para no mundo habitar. Eis aí a venturosa vida. Um saber para o nada, para no nada se fazer em vida. No percurso dia a dia fazendo na via a criação do instante. Compreender como uma co-produção do mundo em sua via. Um co-criador do que existe em coisas. O homem como as águas precisam achar saídas para a vida, sem precisar de canos para a eternidade final. A libertação final rouba a liberdade que produz-se no caminho e não no fim. A vida é o agora do percurso e não o fim que só existe na abstração. É nessa terra incógnita que precisamos viver. Não a uma vida
encanada.O verbo SER se dá no emaranhado do mundo e não fora dele. Não temos que aprender para onde vamos e sim onde estamos. O onde é no caminho, é um co-aprender para co-apreender. Nada fica completo, nada é completo e pronto, tudo é provisório em suas multiplicidades de instauração. A vida se dá nesses verbos ser ou não ser. Ou somos ou não somos. A vida se dá por fluxos como a água que jorra. Precisamos a compreensão para co-aprender e co-apreender a vida na riqueza de seus fluxos. “A vida se dá por fluxos e não por miséria”. A compreensão se dá em consonância com o emaranhado do mundo, esse rizoma e não em oposição ao mundo como quer os lógicos dialéticos. Inspirado em Hölderlin saiu isso há uns tempos passados: A beleza habita na sutileza da divindade poética. A aridez dá lugar ao maravilhamento. Os olhos ganham o encantamento. Faz-se vida. Vida como um sendo eterno. Uma eternidade da criança num fazer e desfazer-se pelo esquecimento. Hölderlin falando: "Muitas vezes, nos exaurimos sem poder encontrar a matéria para nela ancorar os pensamentos". Antes aconselha: “Oh! Não deixes que tua rosa empalideça, juventude vigorosa dos deuses! Não deixes que tua beleza envelheça nas misérias da terra. Essa é minha alegria, doce vida! Que resguardes, dentro de ti, o céu livre das preocupações. Não deves sofrer de indigência, não, não! Não deves ver em ti a pobreza do amor” (p.83). À vida não cabe a pré-ocupação. À vida cabe a ocupação. Não a reprodução e sim a produção. Não a representação, mas a presentificação. A vida é um sendo constante, um ser-no-mundo afirma Heidegger. Fala Hölderlin: "Tu não querias um ser-humano, queria um mundo. Recebeste a perda de todos os séculos áureos compactados em um único momento de felicidade, querias substituir o espírito de todos os espíritos de um tempo melhor, à força de todas as forças dos heróis em um único homem - Vê como és pobre e como és rico? Por que deves ser tão orgulhoso e tão abatido? Por que alegria e dor em ti se alternam de maneira tão assustadora?" (p.85).
Obs. Há muito mais a dizer. O jorro da água é mesmo rizoma. Portanto não explicável. O seu mistério é um poço sem fim. É nesses limites que construímos nosso ser. É nele de instante a instante: perante nós o nada e a vontade de viver. O cano e a metafísica tentam anular o instante no que ele tem de trágico e belo. Eis a necessidade do jorro, do jogar-se para poder jogar-se para fora de si, correr o perigo e possibilitar o ente do ser na vida. Vamos sendo. Não gostamos da casa que nos oferecem: ou vivemos nela ou vivemos. À primeira fenda brotamos em vida, vida em jorros!
Foto: Iziquiel Carvalho

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